Uma dessas narrativas é famosa entre os moradores, sobretudo entre os mais antigos. É a Procissão das Almas, que seria frequentada por alguns espíritos desencarnados. “Ela é realizada na quinta-feira santa, depois dos farricocos do Fogaréu. Antigamente ela era maior, mas hoje é pequena”, diz Maria Dulce Loyola Teixeira, dona de uma casa bem preservada da Rua Dom Cândido Penso, a que atravessa a ponte da casa de Cora e chega ao Largo do Rosário. “Essa procissão foi abolida, mas agora ela está sendo recuperada. É esta procissão que tem fama de assombrada porque fala dos espíritos”, acrescenta.
A procissão começa em frente à Igreja do Rosário e percorre a Rua D´Abadia, onde há a igreja de mesmo nome, e vai até a chamada Praça dos Enforcados. “Era o lugar onde antes as pessoas eram executadas. É uma solenidade bonita, presta uma homenagem àquelas pessoas que foram enforcadas ali. É uma pracinha pequena, que não tem nada indicando. Mas enforcavam as pessoas ali. Depois que enforcavam, jogavam os corpos à revelia, para que os cachorros comessem”, relata Maria Dulce, que nas comemorações dos 20 anos da concessão do título de Patrimônio da Humanidade, está resgatando essas lembranças.
Dentro da programação desenvolvida pelo Instituto Biapó, foi aberta no último 20 de agosto uma exposição no imóvel histórico que fica em frente ao Museu Casa de Cora, com vários tesouros culturais, como música, literatura e gastronomia. Uma das atrações é ver objetos que integram o imaginário das casas da antiga Vila Boa. Batizado de Goiás e Seus Afetos, esse núcleo da exposição estava a cargo de Antolinda Borges, a Tia Tó, que morreu em junho. Maria Dulce tomou a missão para si e foi buscar em sua própria casa o manancial de que precisava para compor a mostra. “Eles dizem que minha casa é um museu”, brinca.
“Toda família tem um caso de assombração, de gente que apareceu”, admite Maria Dulce. “Eu costumo brincar com a minha nora quando ouvimos um barulho. As tábuas da casa são antigas e elas se movimentam. Então, de vez em quando, dá uns estalos e eu digo: ‘É minha bisavó que está aí’”, relata. Outras histórias estão gravadas na memória da cidade, algumas de cunho sobrenatural. Uma delas fala de um capitão-mor, responsável pelas tropas locais, que desapareceu em 1789. Um século depois, seu corpo teria ressurgido emparedado em uma das casas da antiga Rua 13 de Maio, uma das mais belas de Goiás.