Becos de Goiás e Estórias Mais

Becos de Goiás e Estórias Mais

Uma cidade com quase 300 anos teve tempo de acumular muitas histórias e lendas. Goiás preserva essas narrativas, que criam um imaginário especial de assombrações, maldições, brincadeiras e memórias da infância, reforçando sua cultura na oralidade e na literatura

Texto: Rogério Borges

O que anda pelas ruas de pedra de Goiás quando seus moradores se recolhem e apenas a luz amarela dos postes iluminam seu casario, suas igrejas antigas, esses caminhos que foram percorridos por tantas gerações de vilaboenses? O que se esconde em seus becos, seus quintais imensos, seus adros cheios de ritos, nas margens de um Rio Vermelho que escorre calmo, testemunhando o que acontece nessas sombras? O que se passa em Goiás que vem ainda dos tempos do Arraial de Sant´Anna e suas minas de ouro, dos tempos de Vila Boa de Goiás e o poder ali instalado? Quais ecos nos chegam do passado?


O título desta quarta reportagem da série especial sobre os 20 anos da concessão do título de Patrimônio da Humanidade à cidade de Goiás é inspirado em um dos livros em que Cora Coralina, poeta e cronista, dedica seu talento a essas narrativas que atravessaram o tempo e ajudam a imprimir a identidade cultural de uma cidade que soube preservá-las. Em outro de seus trabalhos, Estórias da Casa Velha da Ponte, a escritora recupera algumas lendas que ela já ouvia em sua infância e que resgata de maneira quase mágica, fazendo justiça ao ambiente que sua cidade natal pede. E ela pede um tanto de magia e sobrenatural.




Uma dessas narrativas é famosa entre os moradores, sobretudo entre os mais antigos. É a Procissão das Almas, que seria frequentada por alguns espíritos desencarnados. “Ela é realizada na quinta-feira santa, depois dos farricocos do Fogaréu. Antigamente ela era maior, mas hoje é pequena”, diz Maria Dulce Loyola Teixeira, dona de uma casa bem preservada da Rua Dom Cândido Penso, a que atravessa a ponte da casa de Cora e chega ao Largo do Rosário. “Essa procissão foi abolida, mas agora ela está sendo recuperada. É esta procissão que tem fama de assombrada porque fala dos espíritos”, acrescenta.


A procissão começa em frente à Igreja do Rosário e percorre a Rua D´Abadia, onde há a igreja de mesmo nome, e vai até a chamada Praça dos Enforcados. “Era o lugar onde antes as pessoas eram executadas. É uma solenidade bonita, presta uma homenagem àquelas pessoas que foram enforcadas ali. É uma pracinha pequena, que não tem nada indicando. Mas enforcavam as pessoas ali. Depois que enforcavam, jogavam os corpos à revelia, para que os cachorros comessem”, relata Maria Dulce, que nas comemorações dos 20 anos da concessão do título de Patrimônio da Humanidade, está resgatando essas lembranças.


Dentro da programação desenvolvida pelo Instituto Biapó, foi aberta no último 20 de agosto uma exposição no imóvel histórico que fica em frente ao Museu Casa de Cora, com vários tesouros culturais, como música, literatura e gastronomia. Uma das atrações é ver objetos que integram o imaginário das casas da antiga Vila Boa. Batizado de Goiás e Seus Afetos, esse núcleo da exposição estava a cargo de Antolinda Borges, a Tia Tó, que morreu em junho. Maria Dulce tomou a missão para si e foi buscar em sua própria casa o manancial de que precisava para compor a mostra. “Eles dizem que minha casa é um museu”, brinca.


“Toda família tem um caso de assombração, de gente que apareceu”, admite Maria Dulce. “Eu costumo brincar com a minha nora quando ouvimos um barulho. As tábuas da casa são antigas e elas se movimentam. Então, de vez em quando, dá uns estalos e eu digo: ‘É minha bisavó que está aí’”, relata. Outras histórias estão gravadas na memória da cidade, algumas de cunho sobrenatural. Uma delas fala de um capitão-mor, responsável pelas tropas locais, que desapareceu em 1789. Um século depois, seu corpo teria ressurgido emparedado em uma das casas da antiga Rua 13 de Maio, uma das mais belas de Goiás.

Nesta rua fica “Versalhes” e sua Maria Antonieta. Sim, Maria Antonieta Ramos Jubé Carneiro, mais conhecida como Nini. “Esta é a cidade que eu amo, onde nasci, onde vivo e onde quero morrer”, avisa. Aos 85 anos - “e vou chegar aos 90, já vou logo avisando” -, ela reside em uma típica casa de Goiás, com frente estreita e comprimento que parece infinito. Entramos pela Rua 13 de Maio e saímos na Avenida Beira Rio, local que ela conhece de outros tempos. “Eu ando por aqui desde que era um beco”, conta, reclamando por estar saindo menos de casa em razão da pandemia. “Sempre andei esta cidade inteira.”


Ela recupera outra narrativa bastante popular em Goiás. “Dizem que daquele morro desce um veio de ouro que vem lá de cima e chega até o Rio Vermelho, aqui nos fundos da Casa de Cora. Dizem que está aí até hoje”, provoca. Ela se lembra de outro personagem, este real, que habita suas memórias de infância, passada em Goiás até os 10 anos de idade. “Lembro de um homem que morava no oco do tronco de um tamboril, que ficava na frente do cemitério. A árvore que inspirou o texto O adeus do Tamboril, de Juruena di Guimarães.” Pessoas que andavam pelas ruas da cidade no passado geram lendas no presente.


É o caso de Maria Grampinho, uma senhora que perambulava por Goiás e encontrava refúgio no porão da casa de Cora Coralina antes mesmo de a autora retornar para Goiás. Quem visita o Museu Casa de Cora encontra informações sobre a hóspede, que está nos versos da poeta e em estudos sobre o patrimônio imaterial da cidade. Ela andava com uma trouxa nas costas e muitos grampos no cabelo (daí vem o apelido). Esteve sempre na imaginação das crianças, num misto de medo e encantamento. Ela morreu logo após o falecimento de Cora, mas dizem que ainda anda por ali quando a cidade dorme.


Aparições frequentariam outros espaços de Vila Boa, como o Museu das Bandeiras, antiga Cadeia Municipal, lugar de dor, torturas e morte. Talvez antigos governadores possam voltar ao Palácio Conde dos Arcos. O Quartel do 20, mais um ponto histórico da cidade, com seu profundo poço, também tem alguma fama a respeito, assim como a Igreja da Boa Morte, onde seria possível ouvir passos e ruídos inexplicáveis durante a madrugada. Há algo na Catedral de Sant´Anna, a igreja que não pode ser concluída (assunto para a matéria do mês que vem)? Lendas de uma cidade antiga? Pode até ser, mas… você aceitaria tirar a prova?


Fontes de inspiração

A Procissão das Almas, Maria Grampinho, amores frustrados que continuam após a morte. Cora Coralina, assim como outros autores de Goiás, transferiram para sua literatura a oralidade da infância, as lendas ouvidas de pais e avós. “O núcleo familiar é muito forte em Goiás, a memória que ele traz. Isso acontece com a receita de doces, com o bordado, com o imaterial, como as histórias orais. Isso foi usado como matéria-prima para muitos autores”, aponta a professora de Literatura Goiandira Ortiz, uma das proprietárias da Livraria Leodegária, no Mercado Municipal de Goiás e que vende obras de autores da cidade.


“No século 19, a cultura oral era muito mais importante que a linguagem escrita. E Goiás foi muito efervescente culturalmente da segunda metade do século 19 até a transferência da capital. Havia três salas de cinema, vários jornais, alguns deles comandados por mulheres, teve a fundação do Gabinete Literário, em 1864. Havia, então, um limiar entre o rural, de uma sociedade patriarcal, e uma urbanidade”, pondera Goiandira. “Além disso, há uma geografia que ajuda a preservar tradições. As ruas não mudam, as fachadas não mudam. É uma singularidade que Goiás tem a oferecer nas histórias contadas aqui.”


Essa oralidade, com cenários, personagens, pontos de referência familiares está também nos versos de Leodegária de Jesus, nas compilações de manifestações culturais feitas por Regina Lacerda, nos trabalhos de Antônio Geraldo Ramos Jubé e até nos contos de Hugo de Carvalho Ramos. “Hugo leva para a sua literatura a forma de se expressar do sertanejo, que ele conheceu nas andanças com seu pai juiz pelo interior, do tropeiro que chegava a Goiás”, observa Goiandira, que foi uma das curadoras do Passo Poético, iniciativa que instalou placas com trechos de autores de Goiás na Rua Dom Cândido Penso.


“Há uma ligação íntima entre vida e arte em Goiás. É algo que fica no inconsciente coletivo, no imaginário, na superstição. São coisas que ficam, não são substituídas facilmente. Goiás cuida e guarda desse patrimônio, mesmo que para isso tenha que andar um pouco mais devagar. Não há pressa para que se transforme, também, em literatura.” Algo vocalizado, por exemplo, no grupo das Mulheres Coralinas, que declamam versos da poeta. Bianka Cristina, 21 anos, estudante de Letras da UEG, está há dois anos no projeto, ao lado de dezenas de participantes de várias idades. “É maravilhoso, uma descoberta”, define.

Tesouros da memória

Maria Dulce Loyola reúne em sua genealogia famílias tradicionais. Filha do desembargador Clenon de Ramos Loyola, guarda uma foto do pai no antigo Lyceu de Goiás, quando cursava a 5ª série, ao lado dos colegas, entre os quais estavam Bernardo Élis e Amália Hermano. Mário de Alencastro Caiado, que integrou a Junta Governativa de Goiás após a Revolução de 1930, era padrinho de seu pai. Dois de seus trisavôs foram nomes relevantes na vida política e jurídica do Estado e um de seus tios-avôs foi o poeta Joaquim Xavier de Almeida. E ela, por fim, se casou com um dos filhos do ex-governador Mauro Borges.


Nessa casa onde tantas trajetórias políticas do passado se encontram, há recordações de várias delas e todas, em conjunto, remetem a antigas histórias de Goiás. “Por isso gosto de preservar tudo”, justifica. E tudo é minuciosamente guardado, mantendo as características originais. Ela, por exemplo, emprestou o berço em que sua mãe foi embalada, fabricado em 1930, para a exposição no Instituto Biapó. Outras peças saíram do imóvel que sua bisavó comprou em 1914 e na porta do qual seu bisavô costumava se sentar, reunir netos e bisnetos e passar longos períodos contando as velhas histórias da antiga capital do Estado.


Dessa época, Maria Dulce guarda lembranças de atividades que já não são vistas, como nadar no Rio Vermelho em pleno centro da cidade. “Eu queria pegar meus netos, entrar no Rio Vermelho, nadar com eles aí, mas isso é impossível. Eu nadava aqui atrás da nossa casa”, aponta, fazendo questão de mostrar o amplo quintal que termina em um pequeno portão, passagem para as margens do rio. “A gente atravessava por debaixo da ponte do ribeirão Manoel Gomes. Do outro lado, vizinha à Prefeitura, era a casa de um parente da minha mãe, que se chamava Zitão. Ele tirava leite de manhã e a gente ia lá beber.”


As águas da cidade de Goiás eram mais limpas e abundantes. “A gente nadava também no Poço do Bispo. E os banhos no Bacalhau também eram muito bons. Para a Carioca, a gente ia a pé. Minha mãe pulava de cima da ponte da Cambaúba no rio, dando de ponta. O rio era bem mais profundo”, relata a dona dessa casa que preserva muitos elementos de uma Goiás que se ancora em sua história. O fogão a lenha, os oratórios, a roca para tear, a mina d´água que brota debaixo da residência, os porões, as pedras de outros tempos, os janelões e as portas imensas. “Brincávamos muito neste quintal”, revela.


Maria Antonieta, a Nini, também se divertia muito em seus tempos de criança em Goiás. “Eu brincava de rodo, pique-esconde, baliza”, enumera. O imenso corredor de seu casarão é margeado por um sem número de lembranças: fotos, objetos, presentes ganhos ao longo da vida. Uma das cadeiras está na família desde o século 19. A entrada, com dois portais, é uma marca da arquitetura da cidade, sem contar algo que poucas residências conservam, as amplas janelas com namoradeiras, próprias para ouvir os apaixonados. “Ganhei muitas serenatas, mas nunca namorei aqui”, confessa a dona da casa.


O imóvel também conta com uma preciosidade. Um dos cômodos tem o teto pintado por André Antônio da Conceição, autor dos afrescos da nave da Igreja de São Francisco. “Não sei exatamente como foi que se deu esta pintura, mas já vieram estudiosos e confirmaram a autoria”, explica Nini. Segredos de residências que muitas vezes se enclausuram em fachadas sem luxo. As portas e janelas coloridas podem enganar os mais desavisados, mas muitas casas de Goiás, como as de Maria Dulce e Nini, são jóias valiosas que mantêm, como numa cápsula do tempo, o passado nos objetos e nas recordações de suas donas.


Cenas de antigamente

Os moradores antigos de Goiás guardam na lembrança imagens que não os abandonam. Cenas que alimentam narrativas orais, criam personagens, preservam superstições.


Água do poço - muitas residências têm profundas perfurações nos quintais para chegar ao lençol freático e conseguir água pura. Mas já no início do século passado, bombas manuais ajudavam a obter água, já que a eletricidade era falha. Água para beber, só de poço.


Vendedores de lenha - nos tempos anteriores ao fogão elétrico, a gastronomia típica da cidade era movida a fogões e fornos a lenha. Havia pessoas que traziam, em lombos de mula, a madeira tão necessária. Seus anúncios pelas ruas eram reconhecíveis de longe.


As lavadeiras - O Rio Vermelho corre sobre uma base rochosa que, em certos pontos, aflora à superfície. Essas grandes pedras eram perfeitas para lavadeiras fazerem seu trabalho. Pedras pisadas podem ser vistas próximas ao Mercado, onde as lavadeiras trabalhavam.


Doces na janela - É comum passar por Goiás e ver doces expostos na frente de algumas casas, hábito que vem de longe. Cora Coralina, por exemplo, também colocava as delícias que fazia nas janelas, para deleite de moleques travessos que roubavam vários deles.

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Reportagem

Rogério Borges


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