Religiosidade e histórias
Goiás é uma cidade cheia de igrejas e dentro de cada uma delas há uma infinidade de histórias. Na Igreja do Rosário, por exemplo, há um acervo inestimável de afrescos pintados por Frei Confaloni, o homem que revolucionou as artes em Goiás. “O Confaloni veio para o Brasil para este trabalho”, relata PX Silveira, que está à frente da programação do Instituto Biapó para celebrar as duas décadas de concessão do Título de Patrimônio da Humanidade a Goiás. “Dom Cândido Penso [que seria bispo de Goiás], estava em Roma quando conheceu Confaloni e o convidou para que viesse oficiar aqui em Goiás”, conta PX.
“A princípio, ele respondeu que não, que este não era o plano dele. No dia seguinte, quando Dom Cândido voltou ao assunto, ele abordou de outra maneira. Ele disse: ‘Confaloni, acabamos de reformar uma igreja, a do Rosário, e eu gostaria que você fosse para lá afrescá-la com os 15 mistérios do Rosário. Ele veio para o Brasil para isso e chegou em outubro de 1950”, continua. “Antes de trabalhar na igreja, ele afrescou a capela de Dom Cândido, que está ali também no convento. Nossa ideia é fazer desse conjunto um museu com as obras de Confaloni. É um patrimônio inestimável.”
O atual guardião do local é Frei Wanderley Rodrigues de Mesquita, um dominicano que nasceu no Ceará e estava atuando em Uberaba antes de ser designado para Goiás. “Estou aqui há pouco tempo, mas já consigo perceber que a cidade é muito religiosa”, avalia o pároco. “As igrejas do centro histórico não são tão frequentadas, mas há templos nos bairros que têm um público grande”. O Santuário do Rosário, que por muito tempo foi comandado por Frei Marcos, figura emblemática da cidade, divide espaço com uma associação de artesãos e no largo da igreja, em frente à sua entrada, há um centro espírita.
Além da Igreja do Rosário, a catedral de Sant’Anna, na Praça do Coreto, também tem missas regulares o ano todo, o que não acontece com outros templos históricos, como as igrejas São Francisco de Paula, Santa Bárbara e de Nossa Senhora d’Abadia, que abrem geralmente apenas em datas comemorativas. Já a Igreja da Boa Morte foi dessacralizada para se transformar num museu de arte sacra, onde estão depositadas obras valiosas, como várias esculpidas por Veiga Valle. Mas antes disso, um dos templos religiosos mais conhecidos da antiga capital foi sede episcopal na cidade, chegando a ser catedral.
Isso aconteceu porque a Catedral de Sant’Anna estaria envolta em uma maldição. Essa lenda envolve um padre que exerceu grande poder em Goiás, chamado João Perestrello de Vasconcelos Pina, nascido na Ilha da Madeira e ordenado em Valencia, na Espanha. “Ele era vigário e juiz da vara, fazia julgamentos e virou inimigo de famílias tradicionais”, detalha o pesquisador Rafael Lino. “O historiador Paulo Bertran diz que durante quinze dias do mês, ele passava bonzinho, quinze dias passava atacado. Ele excomungava todo mundo e depois os reabilitava mediante confissão e pagamento com gramas de ouro.”
Esse gênio difícil do sacerdote o fez ser alvo de uma vingança. “Ele granjeou muitas inimizades e foi acusado de deflorar uma moça. No registro histórico, consta que ele foi preso com grilhões, arrastado pelas ruas da cidade e depois apanhou dentro da Catedral de Sant’Anna”, relata Rafael. “Um cronista da época diz que uma das paredes da igreja ficou manchada de sangue da bofetada que ele levou. Ele saiu daqui para Pirenópolis preso. Mas antes, dizem no imaginário local, ele teria jogado uma praga. Se ele fosse inocente, todas as vezes que tentassem terminar a catedral, ela cairia. E ela caiu sete vezes.”
Da última vez que ruiu, o prédio permaneceu no chão por mais de um século. Sua atual versão, que ainda traz resquícios das construções anteriores, só ficou pronta no final dos anos 1990, graças aos esforços de uma devota obstinada. Darcília Amorim, professora de piano e francês, que atuou no Colégio Sant’Anna, criou uma associação para reerguer a igreja. Uma de suas iniciativas foi escrever uma carta ao papa Paulo VI e receber dele uma ajuda de 500 dólares para a reconstrução do templo. Mas o prédio, por via das dúvidas, nunca foi inteiramente concluído. Nunca se sabe, não é mesmo?
Dentro da Catedral de Sant’Anna está o túmulo de Dom Tomás Balduíno, que fez história como bispo de Goiás, criando a Comissão Pastoral da Terra e transformando o município em um dos recordistas em número de assentamentos de trabalhadores rurais em todo o País. A religião também é forte entre os agricultores. “Existe Folia de Reis, Folia do Divino, Folia de São Sebastião. O povo da roça tem seu calendário de festividades”, aponta Rafael Lino. Ao longo de sua história, a cidade de Goiás sempre teve essa relação estreita com a espiritualidade, que se revela das mais diferentes formas, com variados simbolismos.
A fé está na primeira igreja erguida em Goiás, no antigo Arraial da Barra; podia ser sentida no Mosteiro da Anunciação, que por tantos anos encantou visitantes; está nas rezas dentro de casarões compridos, na oralidade que os africanos legaram sobre entidades ligadas à natureza. A religiosidade continua viva na festa na Igreja de São João Batista do Ferreiro, na singela capela de Nossa Senhora Aparecida, no Povoado de Areias, nos atabaques dos terreiros de umbanda e candomblé do Alto Sant’Anna, nos passes dados por kardecistas, nos cultos dos evangélicos. Essa fé também é patrimônio cultural de Goiás.