Hora de celebrar e debater

Hora de celebrar e debater

O Popular apresenta série de reportagens sobre os 20 anos da concessão do título de Patrimônio da Humanidade à cidade de Goiás, um marco não só para a antiga Vila Boa

Texto: Rogério Borges

No dia 14 de dezembro de 2001, o mundo voltou seus olhos para um lugar que havia conseguido preservar o seu passado. Nos sopés da Serra Dourada, às margens do Rio Vermelho, o ancestral Arraial de Sant´Anna, a eterna Vila Boa de Goiás, a antiga capital do Estado voltava a ter sobre si, quase 70 anos após perder o poder político para a recém-fundada Goiânia, mais uma vez, os holofotes. Aliás, ganhava uma visibilidade inédita em sua longa história de quase 300 anos. A partir daquela data, era reconhecida pela Unesco como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. E mudanças vieram.


A partir deste final de semana, O POPULAR vai publicar uma série de reportagens especiais, uma por mês, até dezembro, sobre este fato que tanto impactou não só a cidade de Goiás. Na matéria de hoje, vamos falar de uma série de eventos que serão realizados até o início do ano que vem não só para celebrar a concessão do título, mas também para debater as questões que a cidade enfrenta duas décadas depois da conquista e um movimento de valorização da cultura e do meio ambiente, elementos que foram fundamentais para que a Unesco reconhecesse o centro histórico de Goiás como algo a ser protegido.


Também vamos contar os bastidores do processo de reconhecimento, desde o lançamento da ideia, passando pela formação da comissão que encampou o árduo e trabalhoso processo de montagem de um minucioso dossiê a ser levado à Unesco, as obras físicas que foram necessárias para que Goiás se candidatasse e as avaliações que deixaram os vilaboenses em suspense. Conversamos com quem participou ativamente de todas essas etapas e vamos lembrar Brasilete Caiado, que infelizmente morreu poucos anos depois da vitória, usufruindo pouco dos efeitos causados pelo novo status que a cidade ganhou.


As atividades em torno dos 20 anos do título de Patrimônio da Humanidade têm o apoio do Grupo Jaime Câmara, que sempre acreditou na vitória da cidade. “O projeto é uma parceria do Instituto Biapó, do Museu Casa de Cora e da iniciativa privada, que inclui o Grupo Jaime Câmara, que foi parceiro nosso desde o primeiro momento”, afirma Marlene Velasco, diretora do Museu Casa de Cora. “Com a adesão do Grupo Jaime Câmara, certamente, esse projeto vai ganhar novos públicos e a voz de toda a cidade será amplificada”, avalia o produtor cultural PX Silveira, que está à frente da programação pelo Instituto Biapó.

Muita cultura até 2022

Diomício Gomes / O Popular

No dia 5 de junho deste ano foi lançado no Museu Casa de Cora e no Instituto Biapó - os dois locais estão sediados nas casas que ladeiam a Ponte da Lapa, na cidade de Goiás - o Programa 20 Anos Patrimônio Mundial, que traz o que foi chamada de Programação de Registro, Comemoração e Avaliação. “Escolhemos o dia 5 por ser o Dia Nacional do Meio Ambiente e marca a data em que Goiás costumava inaugurar o Fica, sendo centro de atenção do mundo inteiro graças ao festival, que foi realizado por duas décadas. Esse é um dia especialmente querido pela cidade de Goiás”, diz PX Silveira, do Instituto Biapó.


“A ideia surgiu modesta, a partir do Manoel Garcia, um dos conselheiros do Instituto Biapó. A gente foi amadurecendo, projetando situações. Logo de início, definimos que não seria apenas uma celebração, mas também um registro da situação, uma preocupação de que este título pode ser retirado a qualquer momento”, pondera PX. “A gente quer celebrar os 20 anos da conquista, mas também quer saber como ela se procedeu até agora, os desafios que já enfrentou e que vai enfrentar no futuro, em breve”, enumera. “A programação não está fechada e outras atividades poderão ser acrescentadas”, anuncia o produtor cultural.


No dia 25 de junho, começou o projeto ambiental da programação, batizado de Purifica Rio Vermelho. “Antolinda Borges, a tia Tó, presidente do Instituto Biapó, tem esse sonho antigo de limpar o curso do rio ao menos em sua parte urbana, que começa no Largo da Carioca. Ao menos nesse trecho, pretendemos efetivar essa limpeza. E que ela passe a acontecer todo ano, como parte do calendário ambiental da cidade”, pontua PX. “Não é só limpar. É limpar e dar continuidade. Uma equipe de técnicos está neste momento fazendo um levantamento do que será necessário.”


No dia 17 de julho foi inaugurada, no Instituto Biapó, uma exposição que continua até março de 2022 e se chama Goiás Cidade Mundial. “Ela é subdividida em cinco núcleos”, informa PX. “Temos o Goiás dos Artistas, que vai mostrar quem pintou, retratou a cidade. Ele estará sob a curadoria de Amaury Menezes. Teremos o Goiás das Canções, que vai resgatar canções que trazem a cidade na sua temática. Esta parte está a cargo do maestro Fernando Cupertino”, detalha. “Queremos mostrar que nós chegamos a Patrimônio Mundial porque as pessoas preservaram a nossa História”, salienta Marlene Velasco, do Museu Casa de Cora.


A diretora do museu, com consultoria de Salma Saddi, ex-superintendente do Iphan em Goiás e que teve participação ativa na conquista do título para a cidade, é a curadora de outra parte da exposição, o Goiás dos Patrimônios. “Além de disponibilizar todo o dossiê que foi encaminhado à Unesco, ela vai tratar e focar alguns aspectos do patrimônio de Goiás”, sublinha PX. “Também vamos ter o Goiás dos Sabores. Esse núcleo tem a curadoria coletiva. Vamos chamar as doceiras e cozinheiras de Goiás, que poderão replicar suas receitas. Teremos uma pequena quitanda na exposição para degustação.”


“No Goiás dos Sabores, vamos resgatar aquelas receitas antigas que eram feitas aqui e, na cozinha do Instituto, chamar algumas quitandeiras, doceiras, para fazer as delícias tiradas das receitas antigas da cidade”, descreve Marlene. “Para que nós possamos continuar a honrar o título, essa geração tem a obrigação de dar continuidade. Se nós não mostrarmos para essa geração de hoje a importância do empadão goiano, do alfenim, da rosa de coco, dos doces que Cora fazia em sua casa, não saberão preservar essa tradição.” A quinta parte do projeto é uma das que mais empolgam os organizadores.

 

“É o núcleo Goiás dos Afetos. Ele está sob a curadoria da Antolinda Borges e vai mostrar o que as casas de Goiás têm por dentro”, destaca PX Silveira. “A curadora vai tirar objetos dessas residências e vamos contextualizá-los, o que não vemos porque não temos acesso às casas, por trás daquelas fachadas históricas. Vamos entrar sob a pele da cidade através desses objetos e de suas histórias”, revela o produtor cultural. “Nós preservamos muita coisa em nossa casa que foram de nossos avós, bisavós. Esses objetos de afeto de uma geração passada serão mostrados para a geração de hoje”, complementa Marlene.


No dia 20 de agosto foi inaugurado o Passo Poético, que vai transformou a Rua Dom Cândido Penso, que vai da Ponte da Lapa até o Largo do Rosário, uma via poética. “Nós temos grandes escritores de Goiás que se destacaram nacionalmente, como Ramos Jubé, Hugo de Carvalho Ramos, Félix de Bulhões, Rosarita Fleury, José Bonifácio e tantos outros poetas vilaboenses”, lista Marlene. “Da porta do Instituto até o Largo do Rosário, vamos colocar azulejos. Em cada azulejo, vamos colocar fragmentos de poemas e por na frente de todas essas casas”, explica a diretora do Museu Casa de Cora.


“Vamos fazer uma linha do tempo. A professora Goiandira Ortiz é uma das organizadoras, juntamente comigo, com a Maria Dulce e o Yúri Baiocchi. Nós quatro estamos selecionando os fragmentos dos poemas. Dentro do Instituto Biapó estará o poema inteiro. Nos azulejos terá apenas uma frase. É uma forma de mostrar para os turistas e para as pessoas da cidade quem foram os grandes homens e mulheres que fizeram a literatura goiana”, acrescenta Marlene. “Esse projeto eu idealizei e todo mundo abraçou a causa. Acho que vai ficar muito legal o Passo Poético na Rua de Cora Coralina”, celebra.


“Essa programação é fruto de um consenso que reflete esse desejo de que Goiás seja mais conhecida, desfrutada. É um projeto coletivo que aborda diversos temas, vai ter a atenção nacional e, com isso, trazer esse resultado e fazer com que Goiás seja mais conhecida, reconhecida e seja mais olhada pelas autoridades locais para que a cidade seja melhor cuidada”, acredita PX Silveira. “Uma das ideias para criar essa programação não é só fazer festa num dia só, mas de deixar para esta geração e para as próximas o que os nossos antepassados nos legaram”, reforça Marlene Velasco.


A programação ainda teve  sequência entre 28 e 30 de outubro, com a realização de um encontro entre personalidades culturais que debateram ideias e propostas para qualificar ainda mais a gestão do patrimônio e do meio ambiente na cidade de Goiás.  Por fim, neste 14 de dezembro, data dos 20 anos da outorga do título, uma festa foi realizada,com apresentações musicais e a entrega a notáveis da cultura da Comenda 20 anos, a qual o Grupo Jaime Câmara foi um dos homenageados.


Construção de uma sintonia

Os eventos em torno dos 20 anos do título de Patrimônio da Humanidade à cidade de Goiás é, também, uma espécie de teste para outra dinâmica do aproveitamento dos espaços culturais na antiga Vila Boa. “Com essa programação, estamos dialogando com esses espaços. O Instituto Biapó fica naquela segunda casa da Ponte de Cora e é a primeira vez que estamos fazendo algo em conjunto com o Museu Casa de Cora. E olha que somos vizinhos de porta, literalmente”, aponta o produtor cultural PX Silveira. 


“Estamos fazendo tudo isso acontecer com o Museu Casa de Cora desde o primeiro momento, ouvindo todas as sugestões. Essa ação pretende ampliar questões ligadas à cidade, até na parte ambiental, já que ali somos afetados por ela. O rio passa ao nosso lado. Acho que com um pouco de estratégia, de boa vontade, de conscientização, a gente pode colocar Goiás num outro patamar, sendo mais valorizada e até mais desfrutada por nós, goianos”, considera PX, que acredita que o potencial nesse sentido é grande.


“Goiás é uma cidade cheia de equipamentos culturais e a gente pensa em fazer com que eles passem a funcionar num sistema de circuito, para que um potencialize o outro. Nós temos museus, igrejas, que são equipamentos culturais também, com suas instalações; igrejas com órgãos, palcos, espaços de exposição. A gente pretende fazer com que esses equipamentos tenham a consciência de sua importância, possam potencializar um ao outro e que o resultado para Goiás seja maior, mais mostrado e usufruído”, diz PX.


E vem novidade por aí, um projeto que quer dar a Goiás mais um espaço nobre. “Nós estamos lutando para conseguir criar, junto ao Convento dominicano, o Museu Histórico Frei Nazareno Confaloni”, anuncia o produtor cultural. “Na nave da igreja do Santuário do Rosário temos 15 afrescos que ele fez entre 1950 e 1959. A gente espera, nessa programação dos 20 anos, criar o museu. Já fizemos um estudo de como será o local, com sua lojinha, seu café. Ali temos tudo, com aquele pátio maravilhoso do Rosário.”

Brasilete Caiado, a incansável

“Inquieta. Um trator.” É assim que Nasr Chaul, titular da Agência Cultural Pedro Ludovico Teixeira (Agepel) na época dos trabalhos para a concessão do título de Patrimônio da Humanidade à cidade de Goiás, define a professora Brasilete Caiado. E todos os envolvidos naquele sonho que virou realidade não têm dúvidas em apontá-la como uma das figuras centrais em todo o processo. “Ela foi a pessoa fundamental. Ela empolgava todo mundo”, recorda Marlene Velasco, diretora do Museu Casa de Cora e uma amiga próxima.


“Às vezes a gente estava meio descrente e ela dizia: ‘vamos ser Patrimônio Mundial sim, tenham firmeza’”, relembra Marlene. “Era uma pessoa com uma cultura muito grande, uma força imensa naquilo que pegava para fazer. Ela era uma das que mais acreditaram em todo o processo, pelo amor a Goiás, pela participação efetiva que sempre teve em todas as tradições, na manutenção da vida cultural da cidade”, afirma Chaul. “Brasilete era uma lady, uma mulher de uma delicadeza única”, testemunha Salma Saddi, do Iphan.


“A gente trabalhava até duas, três da manhã. Brasilete era muito engraçada”, rememora Salma. A mesma opinião sobre a professora tem a jornalista Karla Jaime, que cobriu a concessão do título de Patrimônio da Humanidade em Helsinque, na Finlândia, em 2001. Uma viagem que ela dividiu com Brasilete. “Dona Brasilete representava esse elo com o lugar, essa força que as pessoas têm para que as tradições permaneçam. Não é algo que você faz para turista ver”, opina. “Ela era tudo isso e era divertida. Ela agitava o pedaço.”


Para Nasr Chaul, sua ação como presidente do Movimento Pró-Cidade de Goiás fez toda a diferença para o sucesso da empreitada. “Eu penava muito, no bom sentido, de poder cumprir os prazos, conseguir as verbas, cutucar os órgãos governamentais, porque ela morava em Goiás e via se as coisas andavam. Se as coisas ficavam lentas, ela corria ao meu gabinete e a gente somava forças ali.” Karla Jaime reconhece essa energia. “Ela era uma luz, uma pulsação, uma vibração e era muito contagiante.”


Brasilete tinha outro predicado. “A cidade de Goiás é muito política e ela conseguia dialogar com todos, não criava empecilhos. Brasilete tinha as características dela, mas tinha essa abertura para o diálogo. Não fechava portas. Ela estava sempre disposta a comunicar”, elogia Salma Saddi. Filha do ex-governador Brasil Ramos Caiado, Brasilete era sobrinha do ex-chefe político Totó Caiado (avô do atual governador Ronaldo Caiado), mas isso não a impediu de dialogar com forças da esquerda em prol da cidade de Goiás.


A mulher de família tradicional de direita, mas que angariou o apoio de deputados como Aldo Arantes (PC do B) e Pedro Wilson (PT) para a causa vilaboense, não teve muito tempo para desfrutar de sua conquista. Menos de dois anos depois da vitória na Unesco, em 20 de setembro de 2003, Brasilete teve uma morte trágica em um acidente na GO-070, entre Goiás e Itaberaí. Ela dirigia seu famoso Gol branco, que, segundo Salma, na época dos trabalhos do dossiê sobre Goiás, virou “seu escritório”.  “Foi uma grande figura”, resume.

A alegria da conquista

Testemunhas oculares dos dias históricos que transformaram Goiás em Patrimônio da humanidade recordam a trabalheira que foi obter o título e a euforia com a vitória

“Não foi fácil ganhar o título”, admite Marlene Velasco, diretora do Museu Casa de Cora. “Já era uma luta que vinha historicamente”, recorda Nasr Chaul, que presidia a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel) naquele inesquecível ano de 2001. “Tive mais aflição no primeiro momento”, reconhece Salma Saddi, responsável pelo escritório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na época da concessão da honraria. “Foram muitas emoções para mim naquele momento”, admite a jornalista Karla Jaime, que foi para Helsinque, capital da Finlândia, cobrir de perto o grande momento.


Todas essas pessoas guardam na memória as lutas, os obstáculos, as vitórias, as boas ideias, as tensões, as sensações que cercaram a concessão do título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade à cidade de Goiás. Todas essas pessoas estiveram envolvidas nos diferentes e demorados processos que compuseram aquela conquista que para muitos parecia impossível. Todas essas pessoas tiveram suas vidas marcadas por aqueles meses agitados, de indefinições e expectativas, que resultaram em uma festa inédita na antiga capital do Estado.


Quando Marlene, Nasr, Salma e Karla relatam suas lembranças, podemos vislumbrar um projeto que começou muito pequeno, espécie de sonho que quase se misturava a um delírio, para se concretizar em uma realidade que mudaria o destino de uma cidade inteira.“Já ouvi muitas histórias, que o Bernardo Élis [escritor que dirigiu a Agepel nos anos 1990] e o ex-governador Maguito Vilela pensaram nisso. Mas que só pensaram. Foram protagonistas em lançar a ideia, mas para conseguir concretizar um sonho desse, é necessária ação política e administrativa. Só o desejo não faz acontecer”, pondera Salma.


E aconteceu. Após um longo processo de elaboração de um minucioso dossiê sobre a cidade, de uma série de obras de grande porte, de apoios institucionais e visitas de comissões de avaliação, finalmente, no dia 26 de junho, numa reunião em Paris, os dados dos relatórios e a candidatura foram julgados pela Unesco. “Este foi o grande dia. Locais de 15 países estavam sendo apresentados”, informa Marlene Velasco. Na Maison de l´Unesco, sede da instituição em Paris, estava apenas um representante do grupo que encampou a proposta. “Era uma babel. Todos os países ali representados”, descreve Nasr Chaul.


“De repente, aparece na tela principal da sala a cidade de Goiás nos slides. Pensei ali naquele momento: será que esse pessoal faz a mínima ideia de onde fica Goiás? E aí vem o julgamento e nós saímos vitoriosos”, detalha. “Eu saio disparado procurando um orelhão em Paris, veja só (risos). Desse orelhão eu ligo para o Palácio das Esmeraldas, por volta das 6h da manhã aqui. Eu disse: acorda o governador, é importante. Ele acordou, eu dei a notícia ao Marconi Perillo. Depois liguei para Goiás, pois sabia que eles estavam ansiosos, e dei a notícia.” Quem atendeu a ligação foi Brasilete Caiado, figura central no processo.


“O Chaul liga para a Brasilete e diz: ‘nós somos Patrimônio Mundial’. Foi uma emoção tão grande”, reconstitui Marlene. “A cidade desceu para o centro histórico. Tia Tó mandou tocar os sinos das igrejas. Todas as pessoas, de todas as classes sociais, entenderam e se sentiram valorizadas por a cidade ser Patrimônio Mundial”, completa. “Tivemos a sorte de o nosso processo cair na mão de um cara espetacular, o mexicano Pancho Morales. Ele fez a leitura e uma defesa linda. E nesse dia passa na Comissão Internacional da Unesco a cidade de Goiás como candidata a Patrimônio da Humanidade”, recorda Salma Saddi.


“E passamos a viver dois momentos bem distintos. Eu na solidão parisiense e a cidade de Goiás em festa”, narra Chaul. “Eu ali, com uma alegria infinita sem poder expressar aquilo. Mais tarde, Marconi me ligou no hotel e pôs o telefone para eu ouvir a festança que estava na cidade de Goiás. Foi muito legal e como eu não tinha muito o que fazer, fiz uma letra de música chamada Sempre no Coração, que depois o João Caetano gravou.” Mas o resultado final, a chancela definitiva, só viria alguns meses mais tarde, em 14 de dezembro de 2001, quando uma comitiva foi a Helsinque acompanhar a confirmação e a concessão do título.


Nesse grupo na capital finlandesa estava a jornalista Karla Jaime. “Eu fui representando a Organização Jaime Câmara. Eu trabalhei para o jornal O Popular, onde eu era editora de Cultura, e fiz para a televisão e as emissoras de rádio. É curioso pensar que em 2001 a internet ainda era um fenômeno novo. Não tínhamos acesso. A internet era cara.” Ela levou para a Europa algo luxuoso naqueles tempos: um notebook. E nele, escreveu matérias inesquecíveis. “Quando saiu o resultado, fui pelo ritmo de cada veículo. A primeira coisa que fiz foi um telefonema porque o veículo mais instantâneo na época era o rádio.”


Em seguida, Karla gravou as informações levadas ao ar pela TV Anhanguera e as reportagens mais aprofundadas destinadas ao jornal impresso. E o que ela não esperava era que não cobriria apenas o título de Patrimônio da Humanidade para a cidade de Goiás. “Descobri que também estava em julgamento a concessão de Patrimônio Natural da Humanidade para a Chapada dos Veadeiros, que também foi conferido. Consegui dar duas ótimas notícias ao mesmo tempo.” O que ninguém sabia é que a repórter temeu não chegar a tempo ao gelado inverno escandinavo, onde ela viu neve pela primeira vez na vida.


“Foi muito rápido. Fui na véspera. Cheguei em Helsinque no fim de tarde e a reunião seria no outro dia de manhã”, conta. Na ida, sua conexão em São Paulo era muito apertada. “Eu pensei que ia fracassar na minha cobertura internacional já no embarque (risos).” Mas o auxílio de uma outra passageira a ajudou a desembarcar em Congonhas, atravessar São Paulo num fim de tarde e chegar ao Aeroporto de Guarulhos a tempo para tomar o avião para a Europa. Ela seria, como a própria Karla brinca, “uma infiltrada pirenopolina na comitiva de vilaboenses.” “Mas eu criei um vínculo bem especial com a cidade.”


Os bastidores do processo

À frente do Iphan, coube a Salma Saadi fazer as primeiras articulações e chamar à cidade pessoas que pudessem orientar o início do trabalho. “Nós recebemos a visita da Suzana Amaral. Ela representava o Brasil no Comitê Internacional da Unesco e foi fundadora do Icomos no Brasil. O Icomos é o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios e é o braço técnico da Unesco”, explica. “A gente pede o registro para a Unesco, mas a Unesco remete para o Icomos. A Suzana, ao visitar a cidade, ficou encantada e disse que ela tinha que ser Patrimônio Mundial. E aí começamos a conversar. Essa visita foi uns 3 anos antes do título.”


Salma considera que todo o processo foi muito rápido a partir dali. “Tudo encaixou. Fizemos uma reunião do Iphan, da Prefeitura, da comunidade organizada e a Suzana passou para a gente as atribuições. Disse que tínhamos que preparar um documento explicando todas as particularidades da cidade para que a gente pudesse pleitear a candidatura. E assim foi feito. Recebemos a resposta positiva de que deveríamos ir adiante”, relata. Era a hora de haver uma outra mobilização, desta vez interna. Nascia o Movimento Pró-Cidade de Goiás, que foi fundamental para a construção e o engajamento de todas as áreas no projeto.


“Nós nos reunimos no Bacalhau, na casa da dona Belinha, mãe do empresário Leonardo Rizzo, várias pessoas de Goiás envolvidas no processo, para elegermos uma presidente do movimento. Essa pessoa teria com ela a memória de tudo o que estávamos fazendo, assim como teríamos uma secretária, uma tesoureira. Aí elegemos a professora Brasilete Caiado, que foi uma excelente escolha”, relembra Salma. “Ela tinha profundo amor pela cidade, era de lá e veio com tudo. E então começamos a juntar tudo o que precisávamos e a trabalhar com a comunidade para mostrar para o que servia esse título de Patrimônio Mundial.”


“Quando eu assumi a Agepel em 1999, já havia um envolvimento de vilaboenses muito grande. O Comitê da cidade de Goiás já existia, havia cerca de 200 mil reais de emendas do então deputado federal Aldo Arantes para o projeto”, rememora Nasr Chaul. “Algumas pessoas começaram a pensar nessa possibilidade”, conta Marlene Velasco. “Foram vários anos de luta, de sonho. Foi criado o Movimento Pró-Cidade de Goiás, com pessoas como Antolinda Borges, a tia Tó, seu Elder Camargo, a professora Brasilete Caiado. Houve o apoio também da Prefeitura de Goiás, do Governo de Goiás, do governo federal.”


O trabalho estava apenas começando. “O Iphan fez uma carta para o Governo do Estado, para a Prefeitura, dizendo das necessidades que tínhamos para pleitear aquele título. Como poderíamos pleitear o título sem saneamento básico na cidade, sem embutimento da fiação aérea, sem sinalização para quem chegasse, sem um cadastro de oferta turística, sem um inventário dos imóveis?”, pergunta Salma. “Quando era material de pesquisa, o Iphan tinha. Para esses empreendimentos, a Prefeitura não tinha condições de assumir as despesas. Foi quando o governo estadual assumiu.” E o centro histórico virou um canteiro de obras.


Os técnicos da Celg e Telegoiás, empresas que na época eram estatais, fizeram o mapa do que deveria ser feito. No total, 5 km de fiação elétrica e telefônica foram enterrados, liberando o espaço para os tradicionais lampiões de antigamente. O saneamento básico foi outro desafio, uma vez que as redes de esgoto encontraram as pedras do solo vilaboense como entraves. A solução foi fazer ligações condominiais pelos vastos quintais da cidade. “Enquanto faziam as obras físicas, outro grupo cuidava da parte escrita do dossiê, que era fundamental. Quem ia ler nunca havia ido a Goiás”, enfatiza Salma.


“A Suzana Sampaio veio ver o que estávamos fazendo e trouxe a Adriana Castro, que era a presidente do Icomos no Brasil. Nós juntamos a documentação que tínhamos e pensamos que deveríamos ter uma pessoa para, a partir de tudo isso, montar um dossiê para ser apresentado”, descreve. “Chamamos um colega, Marco Antônio Galvão, arquiteto, que já foi superintendente do Iphan, e sua esposa, também arquiteta, Vera Galvão. Eles aceitaram a empreitada de consolidar essas informações”, acrescenta. “O Marco Antônio Galvão foi de uma felicidade muito grande, de um profissionalismo imenso”, reforça Nasr Chaul.


O dossiê produzido, por sua vez, tinha um pulo do gato. “Goiás era uma cidade patrimônio, mas havia outras cidades Patrimônio Histórico no Brasil. Tinha Ouro Preto, Diamantina, que já eram Patrimônio Mundial. Como mais uma cidade ganharia o título no Brasil apenas por seu aspecto arquitetônico?”, pergunta Marlene. “Surgiu a ideia de colocar que era a última cidade a preservar sua arquitetura vernacular e foi através disso que a Unesco entendeu que Goiás devia ser preservada”, diz. “Trabalhamos com Cartas Patrimoniais e existia uma carta recente que tratava da arquitetura vernacular, despojada, simples”, lembra Salma.


“Os elementos dessa arquitetura são a taipa, o adobe, o pau-a-pique. Tudo feito por aqui”, aponta a ex-superintendente do Iphan. “Houve uma defesa espetacular da arquitetura vernacular e eu fiquei para defender a diferenciação histórica entre Goiás e Minas”, completa Chaul. “Você é o gestor da área cultural, é o historiador que estudou quase a vida inteira a cidade de Goiás e tem a oportunidade de fazer um texto das diferenças entre Goiás e Minas. Goiás e Minas têm muito em comum. A mesma ausência do mar, o mesmo luar do sertão. Mas temos diferenças históricas significativas. Para mim foi e ainda é mágico.”


Avaliações regadas a cultura

O título de Patrimônio da Humanidade para a cidade de Goiás começou a vir algum tempo antes dos julgamentos e sessões da Unesco em Paris e Helsinque. “Eu senti uma firmeza maior na visita do Icomos à cidade de Goiás. Nós os recebemos e ali me deu uma certeza maior.” A lembrança de Nasr Chaul, então titular da Agepel, remete a um momento crucial no processo, quando os avaliadores do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, braço técnico das Nações Unidas para esse tipo de averiguação. “Era muito trabalho envolvido, mas acho que a intenção geral de todos fez com que a gente coroasse isso.”


“O dossiê teve muitas informações porque eles exigem”, salienta Marlene Velasco, do Museu Casa de Cora. “A preservação do Cerrado, dos morros que circundam a cidade, a parte da gastronomia, da cultura, como estavam preservados.” Na visita da comissão do Icomos, tudo isso foi levado em conta. Uma primeira versão do dossiê, já com a aposta na arquitetura vernacular e com as obras necessárias prontas ou adiantadas, foi encaminhada ao Icomos Brasil, que a remeteu à Unesco. “É normal eles pedirem alguma informação, e eles fizeram uma pergunta”, recorda Salma Saddi. Para respondê-la, surgiu um aliado.


“Foi um grande defensor do Patrimônio Histórico, que hoje já não está mais conosco, o professor Augusto Carlos da Silva Teles. Ele já com muita idade, já cadeirante, fez muito por nós, com muita sabedoria. Ele analisou e viu um outro aspecto que nós não tínhamos colocado”, destaca Salma Saddi. “Nessa região, começa a romper o Tratado de Tordesilhas, com as possessões portuguesas e espanholas. Ele enxerga isso e faz um complemento, que é um sétimo caderno. Eram seis e passa para mais um. Ele faz essa justificativa e ficou muito boa. Nós mandamos de volta e eles não pediram mais nenhuma complementação.”


Era a hora da visita-chave. “Eles nomearam alguém para verificar se as informações que tínhamos mandado eram verídicas. Eles nomearam um argentino, chamado Alfredo Conti, um homem brilhante, professor da Universidade de La Plata e ele veio com uma equipe do Icomos Brasil. Eles ficaram vários dias”, lembra Salma. “Tínhamos que apresentar aquilo que fizemos. Foi emocionante. Houve um dia em que o historiador Paulo Bertran fez uma defesa da cidade.” E o que o avaliador achou? “O professor Conti foi monossilábico. Ele perguntava, a gente respondia, mas a gente nunca sabia o que podia acontecer.”


Segundo Salma, a vistoria foi detalhada. “Ele entrou nas casas, quis saber se aquilo que falávamos sobre a presença dos elementos constitutivos eram de verdade, se 70% deles continuavam. Quis ver a dinâmica da construção, conversar com as pessoas.” Foram dias tensos para os defensores da candidatura de Goiás, mas o clima era amenizado com cultura. “Muitas coisas foram montadas para apresentar, que faziam parte da alma da cidade. Você não pode achar que um bem imóvel sozinho sobrevive sem a alma dele, que é o patrimônio imaterial”, argumenta Salma. E nessa hora, a união fez a força mais uma vez.


“O professor Elder Camargo, com seus amigos, montou uma revista, que apresentava um pouco de todas as nossas manifestações culturais. Tiveram a chance de conhecer muito da gastronomia. Em cada intervalo das reuniões, havia uma mesa extremamente bem montada por senhoras da cidade com o que havia de mais gostoso da quitanda de Goiás”, recorda Salma. “Houve serenatas. Outra coisa de que gostaram foi uma apresentação, no teatro, de dançaterapia com os internos do Asilo São Vicente de Paula. Percebi que conseguíamos mostrar que a cidade inteira estava envolvida ali.”


O relatório do Icomos veio melhor do que a encomenda, com poucos pontos a corrigir. “O professor Conti falou da emoção, que se certificou de todas as informações e nos deu duas orientações. A primeira é que não usássemos tons fortes nas paredes de alvenaria. Toda cidade colonial é branquinha. O que é forte são as cores dos portais, das janelas, das portas, as esquadrias, como azul, verde, vermelho sangue-de-boi. Outra orientação era relacionada aos toldos. Muitas casas comerciais estavam colocando toldos abobadados e ele orientou o uso do retrátil, que vai e volta. Foram as únicas recomendações.” Bastaram.


Voltar para a página inicial

Expediente

Editores Executivos

Silvana Bittencourt e Fabrício Cardoso


Edição Multiplataforma

Gabriela Lima, Michel Victor Queiroz e Rodrigo Alves


Reportagem

Rogério Borges


Fotos, Vídeo e Edição

Weimer Carvalho

Diomício Gomes

Fábio Lima

Design

Marco Aurélio Soares e Michel Victor Queiroz

Share by: