O helicóptero alçou voo e dentro do aparelho, um destino traçado. Entre os passageiros, membros do Icomos, o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, braço da Unesco para avaliação de candidaturas ao título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. A máquina barulhenta, atraindo a atenção de quem estava embaixo, percorria as antigas trilhas dos bandeirantes, procurando seus próprios tesouros. E seus ocupantes o encontraram exatamente no mesmo lugar: nas serras, morros e matas do entorno da antiga capital de Goiás. “Foi aí que a paisagem entrou nessa história”, conta Rodrigo Santana.
Geógrafo e integrante da comissão que elaborou o dossiê apresentado à Unesco que permitiu a concessão do título de Patrimônio da Humanidade à antiga Vila Boa, Rodrigo estava naquele helicóptero. “Eu me lembro que um dos integrantes do Icomos falou: ‘Essa paisagem que emoldura a cidade valoriza o sítio histórico. É como se fosse a moldura de um quadro que embeleza ainda mais a obra’. Aí a temática ambiental entrou como um argumento forte, tornou-se fundamental”, recorda o atual secretário municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico, que tem o desafio de aliar progresso e preservação.
O meio ambiente foi protagonista na conquista do título e está entre os compromissos assumidos para sua manutenção. Por isso é uma área na qual, ao mesmo tempo, houve vários avanços significativos e que apresenta alguns dos maiores desafios para o presente e o futuro. “É desafiador ter uma harmonia entre as coisas”, admite o prefeito de Goiás, Aderson Gouvea (PT). “Está havendo uma discussão sobre o nosso novo Plano Diretor. Há uma grande procura por loteamentos nos arredores da cidade. O Plano Diretor vai organizar o crescimento para que se tenha harmonia entre história, cultura e a questão ambiental.”
A chegada de um novo Plano Diretor fecha um ciclo essencial. As regras hoje em vigor foram estabelecidas em 1996, quando começou a surgir o movimento que iria resultar, cinco anos depois, na conquista do título. “Aquele Plano Diretor foi elaborado com recursos do Plano Nacional de Sítios Históricos, que beneficiou Goiás, Paraty e Tiradentes. Ele trazia elementos como a ampliação da área de proteção ambiental do Rio Vermelho de 30 para 100 metros e de outros mananciais. Já prevendo a preservação das áreas com relevante patrimônio arquitetônico, histórico, definindo perímetros de proteção”, conta Rodrigo.
Ainda nos anos 1980, foi proibida a atividade de garimpo na bacia do Rio Vermelho, com atuação destacada do então promotor Sulivan Silvestre, que morreu em um acidente aéreo em 1999. Já dentro dos esforços de obtenção do título, houve a criação de uma Área de Proteção Ambiental, APA. “A APA da Serra Dourada, depois rebatizada de Sulivan Silvestre, inicialmente protegeu 21 mil hectares, mas depois entendeu-se que era preciso preservar a paisagem do entorno da cidade. Assim, ela foi ampliada para 35 mil hectares”, informa Rodrigo. Em 2003, no Festival de Vídeo e Cinema Ambiental, FICA, uma outra boa notícia.
Naquele dia, houve a assinatura do decreto de criação do Parque Estadual da Serra Dourada. Trata-se de uma área estratégica em razão de concentrar as nascentes de todos os cursos d’água que cortam o município, como o Rio Vermelho e os córregos Bacalhau, Santo Antônio e Índio, entre outros. “É um berço das águas. O parque foi criado visando conter o crescimento desordenado em direção daquela região, proteger os recursos hídricos, a biodiversidade”, aponta Rodrigo. Mas 18 anos depois, a unidade não foi de fato implantada e os proprietários das fazendas no interior do parque não foram indenizados.
“Hoje temos conflito para o desenvolvimento do ecoturismo na região do parque porque vários proprietários não permitem o acesso das pessoas a determinadas áreas, já que elas são do parque, mas são também propriedade particular”, descreve Rodrigo. “Isso está atrasando a implantação de um projeto de turismo. Os municípios de Goiás, Mossâmedes e Buriti de Goiás se uniram e iniciaram um processo de elaboração de um plano integrado de desenvolvimento turístico da Serra Dourada.” Segundo ele, houve avanços no levantamento fundiário, mas o processo segue lentamente, ficando 4 anos paralisado, de 2010 a 2014.
A Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) informa que a área do parque passou por uma redefinição em 2014 para “inclusão do maior número de nascentes, beneficiando duas bacias e três regiões hidrográficas (total de 389) e exclusão do maior número de infraestruturas (clubes, pisciculturas, granjas, casas, currais) . Foi necessário rever ainda a exclusão de dois assentamentos da reforma agrária.” São os assentamentos Bom Sucesso e Buriti Queimado. O governo espera que o projeto que revê os limites do parque seja enviado e aprovado pela Assembleia Legislativa em 2021.
Rodrigo Santana define como “urgente” a necessidade de um levantamento fundiário e o início das desapropriações e fala do processo de diminuição da área do parque. “Foi feito um acordo para a redução de 30 mil hectares para 23 mil hectares, tirando de dentro dele as sedes das fazendas. O argumento foi a redução do valor de desapropriação, viabilizando o projeto”, relata. “Esse processo de discussão com os proprietários rurais para a revisão do perímetro do parque começou com uma série de conflitos e atritos, mas o debate fez com que houvesse um amadurecimento na relação”, considera o geógrafo.
Em sua avaliação, os proprietários rurais perceberam que o parque pode ser crucial na manutenção das atividades econômicas realizadas fora dele. “Um desses elementos fundamentais é a água que parte do parque, da Serra Dourada”, exemplifica Rodrigo. “Hoje temos uma associação de produtores rurais com propriedades dentro do parque e que dialoga com os municípios. Isso não quer dizer que cessaram as ações ilegais. Eu posso afirmar que elas reduziram com o nível maior de sensibilização dos produtores. Ainda há crimes ambientais sendo cometidos dentro do parque”, adverte.
Uma maior presença da fiscalização também conta nessa equação. “Temos hoje na cidade dois gestores, da APA e do parque, que estão aqui constantemente e assim que temos denúncias, eles têm atuado rapidamente. Esse é um fato que melhorou nossas condições em relação a 10 anos atrás. Já conseguimos proibir a prática de motocross dentro do parque com a intervenção do gestor, que foi lá e apreendeu motos. Já fizeram várias ações de combate ao garimpo ilegal dentro do parque, que ainda acontece, além de coibir o desmatamento. Melhorou muito, mas precisamos avançar ainda mais”, resume.
A beleza e a fúria
A grande cheia do Rio Vermelho apenas vinte dias depois da obtenção do título, que causou grandes prejuízos à cidade de Goiás, foi um sinal de alerta. Um dos cartões-postais de Vila Boa poderia ser uma ameaça se não fosse bem cuidado. Após os extensos danos deixados pela fúria das águas, estudos que haviam sido elaborados antes passaram a ser levados mais a sério e a orientar políticas públicas quanto à gestão dos recursos hídricos. “Neles, foram identificadas áreas de nascentes e uma fragilidade do município quanto a recursos hídricos”, salienta o geógrafo Rodrigo Santana, que participou desses levantamentos.
“Goiás tem uma camada superficial de solo e, logo abaixo, uma camada de rocha praticamente impermeável. Isso significa dizer que não temos aquíferos subterrâneos e há poucas reservas de água nos lençóis freáticos. As águas que temos são superficiais de rios e córregos”, detalha Rodrigo.” Isso nos impõe uma condição de extrema necessidade de preservação da vegetação nativa porque é ela o fator principal de infiltração de água no solo e consegue vencer as rochas que estão logo abaixo, acumulando água em suas fendas. Em outras palavras, temos uma caixa d´água pequena para abastecer a cidade.”
Ainda de acordo com o pesquisador, a preservação da vegetação original é imprescindível para que novas enchentes não ocorram. “Se você retira a vegetação nativa do Cerrado, há o aumento do escoamento superficial e isso agrava, e muito, o risco de novas enchentes e mais catastróficas. Aquela água que antes infiltraria em uma chuva vai escoar na superfície, carreando material para a calha do rio, provocando assoreamento.” Os bancos de areia são visíveis no leito do Rio Vermelho e lidar com eles é um debate quente em Goiás. Há alguns dias, a Prefeitura tentou removê-los com máquinas pesadas e a ação gerou protestos.
O geólogo Jamilo José Thomé está fazendo um diagnóstico sobre o trecho urbano do Rio Vermelho a pedido do Instituto Biapó, dentro das ações comemorativas dos 20 anos do Título do Patrimônio da Humanidade. Um dos temas abordados em seu levantamento é a existência desses depósitos de aluviões nos cerca de 1.200 metros do rio localizados no centro histórico. “Desse total, 680 metros são de um canal artificial, balizado por muros de arrimo e casas. É um trecho antrópico, que não tem seu leito natural. Os protestos em torno das intervenções sobre esses bancos de areia só fariam sentido se fosse um leito original.”
Essa avaliação traz outra questão. “Os próprios muros integram o patrimônio histórico. São feitos com pedras encaixadas, com acabamento superior em pedra sabão. Por isso calculo que esses muros começam a ser erguidos na segunda metade do século 18 e início do século 19. Já as muretas feitas com cimento, calculo que sejam do final do século 19. Esses depósitos de rejeitos fazem com que a água acabe solapando parte desses muros e isso não pode continuar a acontecer.” Saber o que deve ser feito é exatamente o que está sendo levantado neste momento. Depois, o projeto terá prosseguimento em futuras ações.
Uma já em curso é o Purifica Rio Vermelho, atividade de limpeza do leito e conscientização. “No que vi, há um respeito em relação a isso. Há pouco lixo urbano no rio”, elogia Jamilo. Desse estudo, sairão propostas para qualificar atividades nas margens. Um dos lugares que vão receber intervenções é o Largo da Carioca. “É um lugar belíssimo, mas que precisa de melhorias”, anuncia o prefeito de Goiás, Aderson Gouvea. O gestor avisa ainda que o novo plano diretor vai disciplinar melhor a exploração da bacia do Córrego Bacalhau, manancial que abastece de água a cidade. Várias pousadas foram abertas na área nos últimos anos.