Os versos sobre as ruas de pedra da antiga Vila Boa cuidadosamente desenhadas nas linhas do bordado. A delicadeza dos doces feitos a partir de receitas imemoriais, que sobrevivem por gerações. O som de serestas e saraus, que traduzem antigas tradições, nas casas aristocráticas ou nas praças, fazendo daquela capital uma cidade musical. Nos quadros de seus pintores, registros de tempos do passado, mas que ainda estão tão presentes. Elementos imateriais (ou nem tanto) que integram a vida da cidade de Goiás e que auxiliaram na conquista de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade há 20 anos.
“Conhecer Goiás é se apaixonar por Goiás e você só pode se apaixonar pelo que conhece”, pondera o produtor cultural PX Silveira, responsável pela ampla programação de eventos que o Instituto Biapó vem promovendo neste ano de celebração. Uma das iniciativas é uma exposição no casarão em frente à antiga residência da poeta Cora Coralina em que vários predicados da cidade são valorizados, como seus afetos. Nela, objetos e sentimentos se misturam para revelar Goiás. “A partir do momento que você vai puxando o fio da meada, você se apaixona. É uma cidade que tem coisas belíssimas, delicadas”, elogia PX.
“É importantíssima nossa cultura imaterial”, afirma o prefeito de Goiás, Aderson Gouvea. “Goiás é considerada o berço da cultura goiana. Temos várias expressões artísticas aqui, dentre elas as congadas, que precisam de apoio para continuar existindo. Tem uma Orquestra de Violeiros, que foi mais recentemente constituída. Desse encontro de violeiros já surgiu a gravação de um CD e a criação de uma orquestra. Há também o resgate da cultura negra. Nós estamos organizando essa valorização. Há uma ideia de criar uma Casa da Cultura para que dê vazão a essas expressões”, salienta.
O projeto do Museu Leodegária de Jesus, em homenagem à escritora negra que foi amiga e contemporânea de Cora Coralina, é uma luta que vem ganhando corpo, exatamente para marcar a influência negra na cultura, inclusive a imaterial, da cidade de Goiás. O reconhecimento da comunidade quilombola do Alto Sant’Anna, nas vizinhanças da Igreja Santa Bárbara e do Cemitério São Miguel, deu maior impulso a esse resgate. “Estamos pesquisando, por exemplo, os movimentos abolicionistas que existiram na cidade”, afirma a vereadora Elenízia da Mata, primeira mulher negra a exercer esse cargo na antiga capital.
Esse movimento de olhar para o passado com uma perspectiva mais ampla descortina muito do que a cidade apresenta em suas festas religiosas, em sua culinária, em sua música, em sua arte. Os cânticos dos negros nas folias de reis, nas congadas, nas festas do Divino mesclam-se, por caminhos nem sempre suficientemente estudados e registrados, com os legados herdados a partir de contribuições de outros grupos. Isso pode explicar, por exemplo, a forte e famosa musicalidade que Goiás ostenta há mais de um século, algo que ganha expressão por meio de saraus, hinos, serestas, formação de musicistas.
“Goiás é uma cidade musical”, define o maestro e compositor Fernando Cupertino. Filho da antiga Vila Boa, ele sabe do que está falando, uma vez que conviveu, desde a infância, com essa característica local. Mesmo tendo uma destacada carreira na medicina – é professor da UFG e já foi secretário estadual de saúde –, Cupertino nunca abandonou essa paixão. “Havia uma tradição de recebermos formação musical na escola. Então sempre tivemos isso em nosso cotidiano. Nas valsas, nas odes, nas marchas.” Algo que vem de longe, desde os tempos em que o som da música não tinha a competição de outros ruídos.
“A vida social, sobretudo no século 19, até a mudança da capital, girava em torno dos saraus que eram feitos na cidade. Esses saraus, aliás, reuniam não só os convidados do evento, mas pessoas que ficavam na porta das casas, na rua, para ouvir as apresentações. Daí vem o termo serenata, ou seja, as pessoas que ficavam no sereno para ouvir música”, diz Cupertino. “E as casas das famílias mais tradicionais tinham pianos. Eles chegavam em carros de boi, vindo do Rio de Janeiro. Uma jornada inacreditável.” Pianos que foram importantes na formação de gerações de musicistas da antiga capital.
Nesse ambiente, destacam-se nomes como Nhanhá do Couto, que além de ser exímia pianista, abria seu casarão colonial para que outras pessoas mostrassem seu talento. Isso inspirou muitas gerações de musicistas, que tiveram sua iniciação em aulas de piano e foram fazer suas formações mais completas em outros centros. Este foi o caso de sua neta, Belkiss Spencière, que se tornou uma das maiores expoentes da música em Goiás. Outro nome de destaque é Darcília Amorim, figura notória na cidade por seus projetos em prol da Igreja e por suas aulas de piano, com especial atenção para a música sacra.
Esse patrimônio imaterial sobe em altares, se faz ressoar pelas naves de igrejas, já deixou salas do Colégio Sant’Anna quase mágicas. Maestros passaram pela cidade, a começar pelo pai de Nhanhá do Couto, que havia desempenhado essa função em Ouro Preto antes de se mudar para Goiás. No decorrer dos anos, outros talentos surgiram, como a cantora Ely Camargo, por sua vez filha de Joaquim Edison Camargo, compositor e que regeu a Orquestra Sinfônica de Goiânia. Outros nomes vêm de famílias vilaboenses, como a musicista Maria Augusta Calado, que escreveu o livro A Modinha em Vila Boa de Goiás.
Nos cantos das inúmeras procissões que saem pela cidade ou nas serenatas nas noites de lua cheia, tradição que foi retomada não faz tanto tempo, as ruas de Goiás são tomadas por sons de vários estilos. Ruas que também inspiram outro patrimônio cultural imaterial de grande relevo em Goiás: as artes plásticas. Esses becos que Cora Coralina e outros autores homenagearam em suas obras também estão presentes em quadros de várias técnicas. Apenas para citar exemplos mais recentes, Goiás foi lindamente retratada pelos pincéis de Elder Rocha Lima e Octo Marques e pelas areias de Goiandira do Couto.
É uma tradição antiga e até quem não nasceu em Goiás se encantou por suas paisagens e sua história. Na exposição comemorativa promovida pelo Instituto Biapó, há uma parte dedicada aos artistas, sob curadoria de Amaury Menezes. Nesse conjunto, há quadros de DJ Oliveira, que pintou Goiás antes de conhecê-la, baseando-se nos esboços do amigo Amaury. Os afrescos de Frei Confaloni na Igreja do Rosário e as obras sacras de Veiga Valle expostas em várias partes da cidade, sobretudo no Museu da Boa Morte, revelam uma vocação de Goiás para a arte e a beleza. Um patrimônio que merece todos os títulos.