Patrimônios imateriais da Humanidade

Patrimônios imateriais

 da Humanidade

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No bordado, no sabor, na sonoridade, na arte de uma cidade e de um povo, Goiás preserva sua identidade cultural e seu patrimônio afetivo, valorizando ainda mais o título que abriga

Texto: Rogério Borges

Os versos sobre as ruas de pedra da antiga Vila Boa cuidadosamente desenhadas nas linhas do bordado. A delicadeza dos doces feitos a partir de receitas imemoriais, que sobrevivem por gerações. O som de serestas e saraus, que traduzem antigas tradições, nas casas aristocráticas ou nas praças, fazendo daquela capital uma cidade musical. Nos quadros de seus pintores, registros de tempos do passado, mas que ainda estão tão presentes. Elementos imateriais (ou nem tanto) que integram a vida da cidade de Goiás e que auxiliaram na conquista de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade há 20 anos.


“Conhecer Goiás é se apaixonar por Goiás e você só pode se apaixonar pelo que conhece”, pondera o produtor cultural PX Silveira, responsável pela ampla programação de eventos que o Instituto Biapó vem promovendo neste ano de celebração. Uma das iniciativas é uma exposição no casarão em frente à antiga residência da poeta Cora Coralina em que vários predicados da cidade são valorizados, como seus afetos. Nela, objetos e sentimentos se misturam para revelar Goiás. “A partir do momento que você vai puxando o fio da meada, você se apaixona. É uma cidade que tem coisas belíssimas, delicadas”, elogia PX.


“É importantíssima nossa cultura imaterial”, afirma o prefeito de Goiás, Aderson Gouvea. “Goiás é considerada o berço da cultura goiana. Temos várias expressões artísticas aqui, dentre elas as congadas, que precisam de apoio para continuar existindo. Tem uma Orquestra de Violeiros, que foi mais recentemente constituída. Desse encontro de violeiros já surgiu a gravação de um CD e a criação de uma orquestra. Há também o resgate da cultura negra. Nós estamos organizando essa valorização. Há uma ideia de criar uma Casa da Cultura para que dê vazão a essas expressões”, salienta.


O projeto do Museu Leodegária de Jesus, em homenagem à escritora negra que foi amiga e contemporânea de Cora Coralina, é uma luta que vem ganhando corpo, exatamente para marcar a influência negra na cultura, inclusive a imaterial, da cidade de Goiás. O reconhecimento da comunidade quilombola do Alto Sant’Anna, nas vizinhanças da Igreja Santa Bárbara e do Cemitério São Miguel, deu maior impulso a esse resgate. “Estamos pesquisando, por exemplo, os movimentos abolicionistas que existiram na cidade”, afirma a vereadora Elenízia da Mata, primeira mulher negra a exercer esse cargo na antiga capital.


Esse movimento de olhar para o passado com uma perspectiva mais ampla descortina muito do que a cidade apresenta em suas festas religiosas, em sua culinária, em sua música, em sua arte. Os cânticos dos negros nas folias de reis, nas congadas, nas festas do Divino mesclam-se, por caminhos nem sempre suficientemente estudados e registrados, com os legados herdados a partir de contribuições de outros grupos. Isso pode explicar, por exemplo, a forte e famosa musicalidade que Goiás ostenta há mais de um século, algo que ganha expressão por meio de saraus, hinos, serestas, formação de musicistas.


“Goiás é uma cidade musical”, define o maestro e compositor Fernando Cupertino. Filho da antiga Vila Boa, ele sabe do que está falando, uma vez que conviveu, desde a infância, com essa característica local. Mesmo tendo uma destacada carreira na medicina – é professor da UFG e já foi secretário estadual de saúde –, Cupertino nunca abandonou essa paixão. “Havia uma tradição de recebermos formação musical na escola. Então sempre tivemos isso em nosso cotidiano. Nas valsas, nas odes, nas marchas.” Algo que vem de longe, desde os tempos em que o som da música não tinha a competição de outros ruídos.


“A vida social, sobretudo no século 19, até a mudança da capital, girava em torno dos saraus que eram feitos na cidade. Esses saraus, aliás, reuniam não só os convidados do evento, mas pessoas que ficavam na porta das casas, na rua, para ouvir as apresentações. Daí vem o termo serenata, ou seja, as pessoas que ficavam no sereno para ouvir música”, diz Cupertino. “E as casas das famílias mais tradicionais tinham pianos. Eles chegavam em carros de boi, vindo do Rio de Janeiro. Uma jornada inacreditável.” Pianos que foram importantes na formação de gerações de musicistas da antiga capital.


Nesse ambiente, destacam-se nomes como Nhanhá do Couto, que além de ser exímia pianista, abria seu casarão colonial para que outras pessoas mostrassem seu talento. Isso inspirou muitas gerações de musicistas, que tiveram sua iniciação em aulas de piano e foram fazer suas formações mais completas em outros centros. Este foi o caso de sua neta, Belkiss Spencière, que se tornou uma das maiores expoentes da música em Goiás. Outro nome de destaque é Darcília Amorim, figura notória na cidade por seus projetos em prol da Igreja e por suas aulas de piano, com especial atenção para a música sacra.


Esse patrimônio imaterial sobe em altares, se faz ressoar pelas naves de igrejas, já deixou salas do Colégio Sant’Anna quase mágicas. Maestros passaram pela cidade, a começar pelo pai de Nhanhá do Couto, que havia desempenhado essa função em Ouro Preto antes de se mudar para Goiás. No decorrer dos anos, outros talentos surgiram, como a cantora Ely Camargo, por sua vez filha de Joaquim Edison Camargo, compositor e que regeu a Orquestra Sinfônica de Goiânia. Outros nomes vêm de famílias vilaboenses, como a musicista Maria Augusta Calado, que escreveu o livro A Modinha em Vila Boa de Goiás.


Nos cantos das inúmeras procissões que saem pela cidade ou nas serenatas nas noites de lua cheia, tradição que foi retomada não faz tanto tempo, as ruas de Goiás são tomadas por sons de vários estilos. Ruas que também inspiram outro patrimônio cultural imaterial de grande relevo em Goiás: as artes plásticas. Esses becos que Cora Coralina e outros autores homenagearam em suas obras também estão presentes em quadros de várias técnicas. Apenas para citar exemplos mais recentes, Goiás foi lindamente retratada pelos pincéis de Elder Rocha Lima e Octo Marques e pelas areias de Goiandira do Couto.


É uma tradição antiga e até quem não nasceu em Goiás se encantou por suas paisagens e sua história. Na exposição comemorativa promovida pelo Instituto Biapó, há uma parte dedicada aos artistas, sob curadoria de Amaury Menezes. Nesse conjunto, há quadros de DJ Oliveira, que pintou Goiás antes de conhecê-la, baseando-se nos esboços do amigo Amaury. Os afrescos de Frei Confaloni na Igreja do Rosário e as obras sacras de Veiga Valle expostas em várias partes da cidade, sobretudo no Museu da Boa Morte, revelam uma vocação de Goiás para a arte e a beleza. Um patrimônio que merece todos os títulos.



Quantos sabores tem Goiás?

O pastelinho de Goiás, feito com aquele recheio de doce de leite e uma cobertura de canela que casa maravilhosamente bem. E aquele docinho de limão recheado, que quando a gente coloca na boca, até se derrete. Tem empadão também, na melhor tradição goiana. E o alfenim, doce-escultura que reproduz sentimentos e cujo jeito de fazer está se perdendo. E na casa de Cora, doces que habitam aquela cozinha de fogão a lenha e tacho de cobre há tantos anos, desde que a moradora ilustre dividia seu tempo entre caldas e versos. Goiás é assim, uma profusão de sabores, de texturas, de sentimentos em forma de delícias.


Essa culinária, que traz receitas de tantos cantos, que vão de Portugal à África, que chegaram no feijão tropeiro e no arroz carreteiro dos homens que batizam essas matulas feitas para durar nas viagens longas em um sertão que era hostil e misterioso, também integra o patrimônio imaterial de uma antiga capital onde se come muito bem. Nos restaurantes mais tradicionais e rústicos, onde a gente se serve na panela fumegando com aquele frango caipira ou aquela carne de panela cozida na banha de porco, ou nos pastéis do Mercado, não se passa por Goiás sem experimentar alimentos de sustança.


Mas a cidade também já oferece bistrôs refinados, onde se pode apreciar um bom vinho, comer risotos excelentes e desfrutar de um ambiente aconchegante. Após o título de Patrimônio da Humanidade, com a chegada de mais turistas e mais mão-de-obra especializada, esse panorama veio se transformando, mas não perdendo seu sabor original, aquele que inclui frutos do Cerrado, o arroz com pequi e guariroba, as receitas que saem dos caderninhos da avó. Nas janelas coloridas de tantos casarões, doces convidam a testar esse paladar tão especial. Com açúcar, com afeto. Ingredientes centrais dessa história.


Patrimônio imaterial é assim. É tudo aquilo que nem sempre se vê, mas cuja presença é inegável. Pode ser aquele prato delicioso que nos desperta as memórias mais saborosas. Pode ser aquela festa de que você se lembra em sua infância e que continua ali, a encantar os filhos e os netos que vieram depois. Pode ser aquele hino decorado da procissão, aquele poema declamado desde os tempos de colégio, pode ser aquele som que supera os ruídos ou aquele quadro que retrata tão bem uma paisagem conhecida. Pode ser o colorido das areias da serra que em todo pôr do Sol teima em ficar dourada lá no horizonte.


Patrimônio imaterial é algo nem sempre tangível, mas que nos toca profundamente. Toca nossas emoções, nossas recordações, nossos laços familiares e de amizade. Toca nosso jeito de falar e de nos vestirmos, nossas referências mais ancestrais, aquelas que de tão antigas nem sabemos mais, com certeza, de onde vieram. Toca nossa fé, nossas expressões de alegria, nossa relação com o lugar em que vivemos, com a atmosfera que respiramos, com nossas características mais profundas e irrevogáveis. Quem nasceu ou mora em Goiás conhece bem todos esses sentimentos. E a cidade sabe disso.

Os bordados dos afetos

Aos 8 anos de idade, a empresária Milena Curado aprendeu a bordar com sua avó. Na cidade de Goiás, esse tipo de aprendizado é algo natural. As habilidades, em várias áreas, costumam ser transferidas no seio das famílias dentro de seus casarões de longos corredores, portas de madeira de lei e quintais que parecem não ter fim. É num desses imóveis da antiga Vila Boa que está instalada parte da linha de produção e da loja da grife Cabocla, que Milena criou partindo dos saberes ancestrais de lidar com as agulhas, os fios, o algodão e, sobretudo, com a criatividade, nesse trabalho de preservação de memórias.


“Busco fazer com que meu trabalho represente a história desse lugar ao qual pertenço”, afirma. “Eu me inspiro na iconografia, no casario, nas flores do Cerrado. Meu trabalho sempre remete à cidade de Goiás. E nisso eu coloco minha singularidade”, explica. Marcas pessoais que atravessam os versos de Cora Coralina, que busca inspiração nos tecidos mais rústicos, como a chita, que Milena vai recolher nas próprias saudades os elementos que fazem das peças exclusivas que fabrica símbolos de sua terra e sua gente. “Desperto esse lado nostálgico. Isso está nas roupas, nos objetos, nas ruas”, exalta.


Segundo Milena, esse resgate do bordado foi necessário por se tratar de uma arte que quase se perdeu em razão do desinteresse das novas gerações em aprender com as mais antigas a compor essas figuras nos tecidos. Mas cerca de 13 anos atrás, o quadro mudou. “Eu comecei devagar, como uma forma de homenagear a cidade. Mas em 2008, percebi que poderia ser mais do que isso.” A concessão do título de Patrimônio da Humanidade a Goiás e o maior número de turistas por suas ruas, ávidos por consumir algo que fosse típico da antiga Vila Boa, impulsionaram o projeto Cabocla.


A ideia ganhou corpo, ganhou tons, ganhou o incentivo da avó bordadeira de Milena e ganhou um viés social. Por conta da escassez de mão-de-obra para os trabalhos manuais, ela levou a arte para dentro da unidade carcerária da cidade. Assim, mulheres e homens que cumpriam penas no presídio passaram a colaborar com a marca, trabalhando nos bordados, tendo uma renda garantida e fazendo um trabalho de ressocialização efetivo. “Muitos saíram da cadeia e continuaram trabalhando comigo por algum tempo ainda, mulheres e homens.” Vidas transformadas dentro e fora da prisão.


Com o tempo, a marca Cabocla foi ficando mais conhecida e suas peças tiveram mais visibilidade. Hoje, Milena comercializa os vestidos, as batas, as almofadas, os aventais e todo o seu rico e variado catálogo para gente de todo o Brasil. No período mais duro da pandemia, quando a cidade de Goiás praticamente ficou fechada aos visitantes, foi o comércio via internet que assegurou a continuidade do negócio. Clientes não faltam. Das filhas do governador Ronaldo Caiado, a pessoas que se apaixonaram pelos bordados ao vê-los no programa Mais Você, de Ana Maria Braga, a demanda é constante.


Agora, Milena, sempre com as estampas inspiradas nos elementos genuinamente goianos, tem ampliado sua arte para o tricô e para vestidos versáteis, de dupla face, para manter-se não só antenada com as tendências, mas para continuar levando um olhar muito especial para a cidade onde nasceu e que lhe é a maior das referências. “Inovar através do simples. Este é o segredo. Na valorização da chita, do algodão de sacaria, nos tecidos que antes apenas os escravos usavam, que tantas vezes só foram utilizados para fazer panos de prato, a gente cria coisas lindas, levando Goiás, sua arte e sua poesia para o mundo.”


As velhas máquinas de costura, as antigas e hábeis agulhas, o improviso inspirado para dar conta das necessidades mais urgentes em termos de vestuário moldaram um imaginário em cidades como Goiás. Os bordados da Cabocla representam esses saberes que ainda conseguem ser transmitidos, salvaguardados, mas sempre com novidades. “Temos o movimento Sou de Algodão, que produz roupas com menos impactos ambientais. Essa simplicidade é muito importante. Goiás é uma cidade de pessoas simples. Eu sou simples. Mas o simples é o diferencial, basta que a gente tenha um novo olhar para ele”, afirma.

Expediente

Editores Executivos

Silvana Bittencourt e Fabrício Cardoso


Edição Multiplataforma

Gabriela Lima, Michel Victor Queiroz e Rodrigo Alves


Reportagem

Rogério Borges


Fotos, Vídeo e Edição

Weimer Carvalho

Diomício Gomes

Fábio Lima


Design
Marco Aurélio Soares

Arte
André Rodrigues e Luiz Antena
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